Eu tinha acabado de pedir demissão do trabalho, sentia a vida parando de um certo modo, a mente ficando quieta demais como se bolas de feno passassem rolando de um lado a outro do cérebro ao som inquietante do silencio. Naquela manha levantei como de costume no meio da tarde e decidi que aquele silencio me enlouquecia, decidi que iria me livrar da poeira surda alojada nas têmporas. Eu queria um violão. Eu tinha dinheiro e a criatividade morria aos poucos, então aquilo parecia a coisa mais sensata a fazer.
Coloquei uma roupa qualquer, e sai pisando em todas as lojas de instrumentos que encontrava pelo caminho. Me mostravam os violões, me falavam da madeira, da fabricação, da marca. Mas as bolas de feno ainda rolavam.
Eu estava cansada.
Parei na porta de uma loja.
Eram velhos violões.
Você teria um violão de blues? Perguntei.
Vovo Jack desceu as escadas. Ele era do tipo que não conquistava mulheres há muito tempo. Estampas listradas e de flores verdes e amarelas cobriam seu corpo. Era como se o tempo tivesse passado e ele não tivesse se dado conta disso.
Alguns arranhões e cicatrizes aqui e ali.
Marcas da velhice.
Achei que morreria calado. Ele cantou.
Apertei-lhe a mão.
Ouvi o som dos trilhos.
Vovo Jack cheirava a madeira envelhecida e Whisky. Ele me cantou algumas notas.
Feche os olhos. Resmungou o velho.
O sol se punha no horizonte, laranja e quente acima dos brotos de algodão. Os trilhos do trem ressecados e avermelhados escaldavam distorcendo o chão de terra batida. Vovo Jack masca tabaco e cantarola notas entristecidas enquanto embala o corpo jovem em uma cadeira de balanço.
Vejo a poeira das têmporas indo embora junto ao vento, dando lugar ao cantarolar rouco do velho Jack.
É bom voltar. Cantarola ele.
Havia tempo. Muito tempo que não cantava pra ninguém.
De onde venho, canção constrói trilhos de trem.
Há tristeza sim,
Liberdade vem da alma, do canto...
Há alegria sim,
O choro vem do sorrido de um acalanto...
A casa do sol nascente nos espera acolhedora e esperançosa
Tao próximos trilhamos nosso caminho
Para cantar nossas historias
Sem teoria sem prosa
Para rirmos
Chorarmos
E enfim, para nos lembrarmos, de que não há barreiras nem correntes
Nao há futuro nem presente
E o silencio se cala mais uma vez á musica entorpecente.
Para ser ouvido e ser amado,
E eu achei que morreria calado.
Abro os olhos e volto a loja. Vovo Jack está deitado em meu colo, sua madeira tem cheiro de Whisky, e seu canto por um momento se cala. Porem sorrio sabendo que sempre que quiser poderei voltar a casa do sol nascente onde sua voz é eterna.
Dedico ao meu maravilhoso violão o velho Jack.
Camille Hughes
Camille Hughes