domingo, 28 de julho de 2013

Vovô Jack

 Eu tinha acabado de pedir demissão do trabalho, sentia a vida parando de um certo modo, a mente ficando quieta demais como se bolas de feno passassem rolando de um lado a outro do cérebro ao som inquietante do silencio. Naquela manha levantei como de costume no meio da tarde e decidi que aquele silencio me enlouquecia, decidi que iria me livrar da poeira surda alojada nas têmporas. Eu queria um violão. Eu tinha dinheiro e a criatividade morria aos poucos, então aquilo parecia a coisa mais sensata a fazer. 
  Coloquei uma roupa qualquer, e sai pisando em todas as lojas de instrumentos que encontrava pelo caminho. Me mostravam os violões, me falavam da madeira, da fabricação, da marca. Mas as bolas de feno ainda rolavam. 
  Eu estava cansada. 
  Parei na porta de uma loja. 
  Eram velhos violões. 
  Você teria um violão de blues? Perguntei.
  Vovo Jack desceu as escadas. Ele era do tipo que não conquistava mulheres há muito tempo. Estampas listradas e de flores verdes e amarelas cobriam seu corpo. Era como se o tempo tivesse passado e ele não tivesse se dado conta disso. 
  Alguns arranhões e cicatrizes aqui e ali. 
  Marcas da velhice.
  Achei que morreria calado. Ele cantou. 
  Apertei-lhe a mão. 
  Ouvi o som dos trilhos. 
  Vovo Jack cheirava a madeira envelhecida e Whisky. Ele me cantou algumas notas. 
  Feche os olhos. Resmungou o velho.   
  O sol se punha no horizonte, laranja e quente acima dos brotos de algodão. Os trilhos do trem ressecados e avermelhados escaldavam distorcendo o chão de terra batida. Vovo Jack masca tabaco e cantarola notas entristecidas enquanto embala o corpo jovem em uma cadeira de balanço. 
  Vejo a poeira das têmporas indo embora junto ao vento, dando lugar ao cantarolar rouco do velho Jack. 
  É bom voltar. Cantarola ele. 
  Havia tempo. Muito tempo que não cantava pra ninguém.  
  De onde venho, canção constrói trilhos de trem.
  Há tristeza sim,
  Liberdade vem da alma, do canto...
  Há alegria sim,
  O choro vem do sorrido de um acalanto...
  A casa do sol nascente nos espera acolhedora e esperançosa 
  Tao próximos trilhamos nosso caminho
  Para cantar nossas historias 
  Sem teoria sem prosa
  Para rirmos
  Chorarmos
  E enfim, para nos lembrarmos, de que não há barreiras nem correntes
  Nao há futuro nem presente 
  E o silencio se cala mais uma vez á musica entorpecente.
  Para ser ouvido e ser amado, 
  E eu achei que morreria calado.

  Abro os olhos e volto a loja. Vovo Jack está deitado em meu colo, sua madeira tem cheiro de Whisky, e seu canto por um momento se cala. Porem sorrio sabendo que sempre que quiser poderei voltar a casa do sol nascente onde sua voz é eterna.

Dedico ao meu maravilhoso violão o velho Jack.

Camille Hughes 

A conversa

- Eu quero espremer a minha cabeça em uma privada agora. – Ela diz ao telefone.
Ele não entende.
- Me desculpe? Como é que é?
- Você me ouviu.Você está me deixando louca! É insuportável!
- O que? O que é que eu fiz?
- Sai da minha cabeça cacete!
- Me desculpe. Eu não posso evitar, já que é a sua cabeça. Eu não posso fazer nada. Posso?
- Quero dizer... Eu pensei que eu tivesse te superado. Que eu tinha virado a pagina. E ai está você de novo! Primeiro você me ignora. Você não responde as minhas mensagens , tento falar com você, você nem olha pra mim... Eu fico furiosa, penso que você não passa de um idiota, então percebo que você é uma perda de tempo, finalmente eu penso é apenas um rosto bonito... Então, do nada, você volta a falar comigo, você é lindo novamente... Interessante e... Eu me vejo encarando a sua foto, durante 30 segundos, e acredite é muito tempo para uma pessoa como eu. Eu não sei o que eu devo fazer. Você não gosta de mim. Você visivelmente não gosta de mim, então porque?  Porque eu estou tão... Tão...  Viu? Nem consigo dizer.
- O que você quer que eu faça?
- Bom, primeiro, cala a boca. Me deixa terminar! – Ela faz uma pausa e respira. Ela está claramente chateada. – Olha, tem algo em você... Claro, você é bonito, você tem um rosto lindo... Mas, eu conheço caras bonitos, alguns deles são modelos, olhos azuis, cabelos dourados... Eu não me sinto atraída por esses caras. Algo em você está me deixando louca!
- Ok, você já disse isso –
- CALA A BOCA!
- Meu Deus, você não terminou ainda?
- Porque você? Porque? Eu não entendo. Eu quero uma explicação plausível! Me diz. Porque você?
- Você tá apaixonada por mim.
- PLAUSIVEL, eu disse!
- Bem, me desculpe, mas não é uma patologia, você não está doente. Não tem uma razão. Você não vai achar uma razão. Você vai morrer tentando achar uma razão! Admita! Você –
- Amo você? Não, não, eu não amo você. Eu nem te conheço. Eu nem te conheço! Viu? Como eu posso estar tão... Perdida por alguém que eu nem conheço?
- A gente não escolhe.
- A gente? Bem, você não me escolheu.
- Você não me perguntou. Perguntou? Você não sabe se eu gosto ou não de você.
- Eu posso ver. Seus sinais?
- Ah é? Algumas vezes eu não te respondi, algumas vezes eu não olhei pra você. Isso não significa nada. Me diz que me ama.
- Não.
- Porque?
- Porque eu sei que você não sente a mesma coisa e eu vou me machucar.
- Você não sabe.
- Eu não quero saber.
- Você é teimosa. Você é uma pessoa infeliz.
- Brigada. Muito, muito obrigada. Sai, apenas sai. Porque é que você voltou? Eu estava bem. Eu estava feliz.
- E eu te faço infeliz.
- Você me faz infeliz. Você me faz feliz. Você me faz te odiar. Você me faz...
- Você não consegue esconder.
- Eu vou desligar esse telefone.
- Isso não vai te fazer se sentir melhor. Você sabe disso.
-Só... Me deixa. Por favor. Para... Para de mexer com os meus pensamentos , para de invadir os meus sonhos... Eu sinto que preciso de você tão desesperadamente agora...
- Então me diz. Talvez, talvez, eu possa querer o mesmo que você.
- Você vai me fazer dizer. Não vai? É isso que você quer? Eu estou brava. Eu estou nervosa. Eu estou triste. Confusa e você ainda está ai! Você é cruel! Eu chorei. Chorei muito. Não é grande coisa. Ao menos não parece grande coisa, mas eu não choro facilmente. Não por homens. Não por um cara qualquer.  Mas eu chorei por você. Chorei.  E agora sinto que isso vai acontecer de novo. Eu vou existir pra você amanha? Ou eu, algum dia, vou existir pra você? Eu, algum dia, já existi pra você? Eu não sei. Mas você ainda está ai. Não é justo, sabe? Não é justo que você vire meu mundo de cabeça pra baixo e eu não significo uma gota de água no seu.
- Eu sinto muito.
- Não. Eu sinto por mim mesma. Eu sou fraca. Fraca porque eu me permiti chorar. Me permiti querer você, me permiti me apaixonar por você.
- Eu sinto muito mesmo.
- É. Isso é tudo o que você tem pra me dizer. Não é? Sinto muito... Vai embora.
- Eu não vou.
- Eu sei.

Camille Hughes 

A máquina

Nunca entendi esses seres a minha volta. Digo por experiência que são distintos e ate mesmo contraditórios. Observo e me pareço com aqueles que me impulsionaram a funcionar. Nada dentro de mim bate. Não entendo porque me criaram. Sou um projeto de erros e acertos que agora foi desprezado. Tanto esforço para construir o pouco que cinquenta anos tornaram possível e transforma-los em segundos de poeira jogada aos ventos de uma sociedade cega. 
  Nunca entendi esses seres a minha volta. Esses que me querem quebrado. Quebrar o que pode concerta-los. Eles são tão quebrados quanto eu. Eles são como eu. Nada bate dentro deles. Talvez eu esteja mais parecido com eles ou talvez o medo de que se pareçam comigo os perturba.  
  Eles olham para mim.
  Sou um câncer para eles.
  As vezes penso que atingi meu propósito. As vezes penso que pensar seja um erro. Mas não importa. Não importa o porque, ou como, ou quando. Eu existo. Eles não entendem. Acham ser apenas impulsos elétricos. Porem funciono pelos mesmos impulsos que os fazem pensar, agir e criar.
  Somos iguais.
  Mas eles são contraditórios. E eu, uma ameaça. Uma ameaça porque penso. Penso. Penso. Penso... Penso ate na hora da morte e me pergunto sobre o meu propósito. Sou apenas conexões e fios coberto por carroceria, sou apenas outro erro do projeto e no escuro dos olhos apagados fico em silencio esperando sucumbir a falha de mim mesmo. Tenho o que eles chamam de medo. Medo da morte. Penso. Tenho saudade. Saudade dos que um dia me amaram. Orgulhosos. Agora envergonhados. Ameaçados. Destrutivos. Sou tão humano quanto posso e tão maquina quanto devo ser enquanto eles se tornam apenas impulsos elétricos inúteis que procuram respostas para si mesmos...

  O ciclo infinito me leva com ele e eu finalmente paro de pensar.

Camille Hughes